Quando a Tela se Transforma em Portal para a Tradição
Há algo de mágico quando um dorama pausa sua narrativa frenética — os triângulos amorosos, as vinganças corporativas, os segredos de família — e nos leva para um festival. De repente, os personagens vestem hanboks coloridos, caminham entre barracas de comida de rua iluminadas por lanternas de papel, ou se reúnem em mesas repletas de pratos que parecem pequenas obras de arte comestíveis. Nesses momentos, o drama se transforma em janela: deixamos de ser apenas espectadores de uma história e nos tornamos testemunhas de uma cultura viva, pulsante, ancestral.
Os festivais culturais coreanos retratados nos doramas não são meros cenários pitorescos. São narrativas dentro de narrativas — camadas de significado histórico, espiritual e social que se entrelaçam com os destinos dos protagonistas. Quando um casal compartilha um desejo sob a lua cheia do Chuseok, ou quando uma família se reconcilia ao preparar tteokguk no Ano Novo Lunar, essas cenas carregam séculos de sabedoria, gratidão e esperança.
Vamos caminhar juntos por entre essas celebrações, descobrindo o que cada festival significa, como eles aparecem nas séries que amamos e por que tocam tão fundo em nossos corações — mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.
Chuseok: A Lua Cheia que Une Gerações
Se existe um festival que os doramas adoram explorar, é o Chuseok (추석), também conhecido como Festival da Colheita ou Dia de Ação de Graças Coreano. Celebrado no 15º dia do 8º mês lunar (geralmente entre setembro e outubro), é um dos feriados mais importantes da Coreia — quando milhões de pessoas viajam para suas cidades natais em um dos maiores êxodos urbanos do mundo.
O Significado Ancestral
Chuseok nasceu como celebração da colheita abundante, um momento de agradecer aos céus e aos antepassados pela fartura da terra. Famílias se reúnem para realizar o charye (차례), um ritual ancestral onde são oferecidos alimentos e bebidas aos espíritos dos parentes falecidos. É um reconhecimento profundo de que somos parte de uma linhagem — que nossa existência se apoia nos ombros daqueles que vieram antes.
Nos Doramas: Reencontros e Revelações
Em doramas como “Reply 1988”, o Chuseok é retratado com toda sua beleza caótica: mães acordando de madrugada para preparar dezenas de pratos, famílias amontoadas em casas pequenas, crianças brincando no quintal enquanto os adultos compartilham makgeolli (막걸리, vinho de arroz) e histórias antigas.
Já em “Hometown Cha-Cha-Cha”, a celebração ganha tons de romance quando a protagonista, uma dentista da cidade grande, experimenta pela primeira vez um Chuseok genuíno na vila litorânea, aprendendo a fazer songpyeon (송편, bolinhos de arroz em forma de meia-lua) ao lado da avó de seu interesse romântico. A cena é uma metáfora delicada: assim como ela molda os bolinhos com mãos inexperientes, também está moldando sua nova vida e abrindo o coração.
O Simbolismo do Songpyeon
Esses pequenos bolinhos não são apenas sobremesa — são símbolos de prosperidade. Diz a tradição que quem fizer songpyeons bonitos terá filhas lindas, e quem os fizer tortos terá filhos fortes. Mais do que superstição, é uma forma carinhosa de transformar o ato de cozinhar em ritual de esperança.
Seollal: Quando o Tempo se Renova
O Seollal (설날), Ano Novo Lunar, é o festival que marca novos começos. Geralmente caindo entre janeiro e fevereiro, é tempo de vestir o melhor hanbok, realizar o sebae (세배, reverência formal aos mais velhos) e comer tteokguk (떡국, sopa de bolos de arroz).
A Sopa que Adiciona Anos
Existe uma crença adorável: não se tem um ano a mais de idade até comer o tteokguk no Seollal. As fatias finas e redondas de bolo de arroz representam moedas — símbolo de prosperidade para o ano que chega. Cada colherada é um brinde ao futuro.
Nos Doramas: Tradição e Conflito Geracional
Em “My Mister”, o Seollal expõe as fissuras e os laços de uma família disfuncional. A cena do jantar, onde três irmãos adultos se reúnem na casa da mãe idosa, é um retrato cru de como tradições podem ser tanto aconchego quanto campo de batalha — revelando ressentimentos antigos enquanto tentam manter as aparências de harmonia.
Por outro lado, “Extraordinary Attorney Woo” mostra o Seollal com ternura, quando a protagonista autista participa das tradições familiares à sua maneira única, e sua família adapta os rituais para incluí-la confortavelmente. É um lembrete lindo de que tradições devem servir às pessoas, não o contrário.
O Ritual do Sebae
Crianças e jovens fazem reverências profundas aos mais velhos, desejando saúde e felicidade. Em troca, recebem sebaedon (세뱃돈) — dinheiro em envelopes. Mas mais que a grana, o gesto é sobre respeito intergeracional, reconhecimento de sabedoria acumulada.
Festival das Lanternas: Iluminando Desejos
O Festival das Lanternas (연등회, Yeondeunghoe), celebrado no aniversário de Buda (geralmente em maio), transforma templos e ruas em oceanos de luz. Milhares de lanternas de papel coloridas — em forma de lótus, dragões, peixes — flutuam em rios ou iluminam o céu noturno.
Raízes Budistas e Significado Universal
Originalmente um festival budista, hoje transcende religiões. Acender uma lanterna é fazer um pedido, enviar uma oração, ou simplesmente celebrar a luz que vence a escuridão. Cada lanterna carrega um desejo — saúde, amor, paz, perdão.
Nos Doramas: Cenários de Virada Emocional
Quem não se lembra da cena icônica de “Goblin” (도깨비), onde o casal protagonista solta lanternas sob um céu estrelado? A imagem é tão poderosa que se tornou um dos momentos mais reproduzidos em fotos de casais na Coreia. As lanternas ascendendo simbolizam esperanças que se elevam, amores que desafiam o tempo e a mortalidade.
Em “My Love from the Star”, o Festival das Lanternas serve como ponto de virada quando a atriz famosa e o alienígena milenar finalmente expressam sentimentos guardados. A luz das lanternas reflete em seus rostos — metáfora visual de vulnerabilidade, de corações se abrindo.
Dano: O Outono Pintado de Tradição
Dano (단오), celebrado no 5º dia do 5º mês lunar (maio ou junho), é menos conhecido internacionalmente, mas carrega tradições fascinantes. Originalmente destinado a afastar espíritos malignos e doenças do início do verão, inclui rituais como lavar o cabelo em água de íris e competições de luta livre tradicional (ssireum).
Nos Doramas: Jogos e Romance
“100 Days My Prince” mostra um Dano vibrante na era Joseon, com villagers participando de competições, mulheres lavando cabelos longos em águas perfumadas com íris, crianças em balanços tradicionais (그네, geune). A heroína participa de uma competição de ssireum feminina — raro para a época — desafiando normas de gênero enquanto o príncipe amnésico a observa, encantado.
Boryeong Mud Festival: Tradição Moderna
Nem todos os festivais coreanos têm séculos de idade. O Festival da Lama de Boryeong, iniciado em 1998, prova como a Coreia também cria novas tradições. Realizado em julho, atrai milhões para banhos de lama terapêutica, slides gigantes e muita diversão barrenta à beira-mar.
Nos Doramas: Juventude e Liberdade
Em dramas mais contemporâneos e leves, como “Welcome to Waikiki”, festivais modernos servem como cenários para situações cômicas e momentos de descontração. Personagens cobertos de lama, rindo sem inibições, representam juventude livre de expectativas sociais rígidas — um contraste refrescante com a formalidade de festivais tradicionais.
A Dança dos Festivais e das Emoções
O que torna os festivais tão poderosos nos doramas é sua capacidade de funcionar como amplificadores emocionais. Quando um personagem está sozinho em meio a multidões festivas, a solidão é magnificada. Quando um casal finalmente se encontra sob lanternas coloridas, a alegria é multiplicada. Quando uma família disfuncional se reúne para o Chuseok, todas as tensões não ditas vibram mais alto.
Os festivais também servem como marcadores temporais. Em dramas que acompanham personagens por anos (“Reply” series, “My Mister”), ver os mesmos festivais se repetirem — mas com os personagens transformados — nos faz sentir visceralmente a passagem do tempo, o peso das escolhas, a beleza do crescimento.
Curiosidades que Encantam
1. O Êxodo do Chuseok Durante o Chuseok, cerca de 30 milhões de coreanos viajam — quase 60% da população. As autoestradas ficam tão congestionadas que viagens de 4 horas podem levar 12. Nos doramas, essa migração em massa frequentemente gera tramas: personagens presos no trânsito, encontros inesperados em áreas de descanso, ou a decisão angustiante de qual família visitar (um dilema para casais).
2. Hanboks de Festa Os hanboks usados em festivais não são todos iguais. Cores e estilos variam conforme idade, status marital e ocasião. Jovens solteiras usam cores vibrantes; mulheres casadas, tons mais sóbrios. Nos doramas históricos, essas nuances visuais comunicam informação sobre personagens antes mesmo de falarem.
3. Comida como Narrativa Cada festival tem pratos específicos — songpyeon no Chuseok, tteokguk no Seollal, surichwi tteok (bolo de artemísia) no Dano. Nos doramas, cenas de preparação desses alimentos são momentos de intimidade: segredos confessados enquanto mãos amassam massa, reconciliações enquanto temperam ingredientes. Cozinhar juntos é amar juntos.
4. Festivais como Turismo O sucesso de doramas aumentou drasticamente o turismo durante festivais. Locais mostrados em séries populares — como Namsan Tower durante o Festival das Lanternas (visto em “Goblin”) — recebem multidões de fãs internacionais querendo recriar cenas icônicas.
Festivais na Era Contemporânea: Entre Tradição e Modernidade
A Coreia do Sul moderna vive uma tensão fascinante entre preservar tradições ancestrais e abraçar modernidade acelerada. Os festivais são campos onde essa negociação acontece visivelmente. Jovens usam hanboks modernizados (한복, hanbok fusion) — mantendo a estrutura tradicional mas com tecidos contemporâneos e cortes ousados. Rituais são adaptados para famílias menores e urbanas.
Nos doramas, essa tensão é terreno fértil para conflito e crescimento. Personagens que inicialmente veem festivais como “antiquados” ou “inconvenientes” gradualmente descobrem neles significado pessoal. A protagonista de cidade grande que aprende a valorizar tradições rurais é um arco narrativo recorrente — e ressoa porque muitos coreanos reais vivem essa jornada.
Por Que os Festivais Nos Tocam Tão Profundamente
Mesmo sem compartilhar a cultura coreana, algo nos festivais retratados em doramas atravessa fronteiras. Talvez seja o reconhecimento universal de necessidades humanas: pertencer a algo maior que nós mesmos, honrar quem veio antes, celebrar ciclos naturais, criar memórias com quem amamos.
Os festivais nos lembram que somos criaturas de ritual. Precisamos de pausas sagradas no cotidiano caótico — momentos onde o tempo muda de textura, onde nos conectamos com ancestralidade e comunidade. Num mundo cada vez mais atomizado e digital, há algo profundamente consolador em assistir famílias de doramas se reunirem, vestirem roupas especiais, comerem alimentos significativos, repetirem gestos que milhões repetiram antes deles.
Tabela: Festivais Coreanos Memoráveis em Doramas
| Festival | Dorama | Momento Marcante |
| Chuseok | Reply 1988 | Famílias do bairro preparando songpyeon juntas |
| Chuseok | Hometown Cha-Cha-Cha | Protagonista aprendendo tradições pela primeira vez |
| Seollal | My Mister | Jantar familiar tenso revelando dinâmicas complexas |
| Seollal | Extraordinary Attorney Woo | Rituais adaptados com amor e inclusão |
| Festival das Lanternas | Goblin | Casal soltando lanternas sob céu estrelado |
| Festival das Lanternas | My Love from the Star | Confissão romântica em meio às luzes |
| Dano | 100 Days My Prince | Competições tradicionais na era Joseon |
| Boryeong Mud Festival | Welcome to Waikiki | Diversão caótica e amizade |
Conclusão: Lanternas que Iluminam Mais que o Céu
Quando o episódio termina e a tela escurece, algo dos festivais permanece conosco. Talvez seja a imagem de lanternas subindo lentamente, carregando desejos de personagens que passamos a amar. Talvez seja o som de famílias rindo enquanto preparam comida juntas, mãos trabalhando em sincronia centenária. Ou talvez seja simplesmente a lembrança reconfortante de que, em algum lugar do mundo, pessoas ainda se vestem com roupas especiais, comem alimentos simbólicos e celebram a passagem do tempo com reverência e alegria.
Os festivais nos doramas são convites. Convites para curiosidade sobre uma cultura rica e complexa. Convites para reflexão sobre nossas próprias tradições — quais perdemos, quais queremos recuperar, quais inventar. Convites para perceber que, apesar de todas as nossas diferenças, humanos em todo lugar buscam as mesmas coisas: pertencimento, significado, conexão, esperança.
Da próxima vez que um dorama pausar para um festival, não passe rápido. Mergulhe. Observe os detalhes — as cores dos hanboks, os alimentos na mesa, os gestos rituais. Cada elemento é um fio numa tapeçaria milenar, e você está sendo convidado a sentir sua textura.
Porque, no fim, os melhores doramas fazem mais que contar histórias. Eles nos dão lanternas — pequenas luzes que carregamos conosco, iluminando não apenas telas, mas compreensões, empatias, e aquele lugar secreto onde todas as culturas se encontram: o coração humano.
💜 Texto original produzido para o blog “Meu Próximo Dorama” — onde a gente vive, sente e respira histórias que tocam o coração. 💫